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Tânia
Zagury
Filósofa, Mestre em Educação, Escritora.
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Pedofilia, o novo fantasma
Como se já não houvesse preocupação de sobra, mais um
"fantasma" vem afugentando o sono das famílias
- a pedofilia. De fato nunca se ouviu, falou e noticiou
tanto o assunto. Há poucos tempo, na França, foram condenadas
62 pessoas por estupro, molestamento, indução à prostituição
e falha na proteção a 45 crianças, algumas das quais,
bebês de menos de um ano de idade. Muitos dos envolvidos
são pais e avós das crianças. Choca saber que 26 dos condenados
são mulheres. O julgamento levou quatro meses e provocou
comoção mundial. O "chefe" da rede é um homem
cujos próprios filhos (quatro) estavam entre as crianças
abusadas. Uma menina de apenas 12 anos foi estuprada 45
vezes. A extensão do problema é tal que atinge países
de todo o mundo, independentemente do nível de desenvolvimento.
Esse e outros casos noticiados recentemente demonstram
que, por mais que nos assombre e cause repulsa, há fundamento
para o temor que nos aflige. Conseqüentemente, ter informações
e dados sobre como orientar os filhos e como prevenir
o problema torna-se uma necessidade concreta e imediata.
Comecemos entendendo o que é a pedofilia. De forma bem simples,
pode ser definida como abuso sexual (carícias nos órgãos
genitais, masturbação, sexo oral, penetração vaginal e
anal) praticado por adultos contra crianças ou adolescentes
(a idade varia de um país para outro; no Brasil a legislação
definiu para tal os menores de 14 anos).
Do ponto de vista médico e psiquiátrico é entendida como
uma disfunção sexual. Alguns grupos, porém, consideram-na
uma psicopatologia - perversão sexual com caráter compulsivo
e obsessivo. O pedófilo é chamado agressor sexual preferencial.
Do ponto de vista do conceito social é definido como atração
erótica por crianças, elaborada no terreno da fantasia,
que, no entanto, pode se materializar em atos sexuais
com meninos ou meninas. Há muitos pedófilos que não cometem
violência sexual, satisfazendo-se através de fotos ou
imagens despretensiosas de crianças, que lhes propiciam
intenso desejo sexual, sem que obrigatoriamente passem
ao ato real. Nem todo pedófilo, portanto, é um agressor
sexual e vice-versa. Grande parte dos casos de incesto
e pedofilia ocorre sem emprego de força física ou atos
de crueldade. Mas também existem outros, descritos em
diversas partes do mundo, de pedófilos que assassinam
as crianças.
Há estreita relação entre pedofilia, incesto e prostituição
infantil.
Existem várias formas de abuso sexual:
1) violento e direto - que ocorre sem o consentimento
da criança e sempre envolve contato físico ou violação;
2) não-violento ou consentido - que ao contrário do primeiro,
conta com a permissão da criança ou adolescente, o que
não isenta o agressor de suas responsabilidades. O menor,
pelas próprias características da fase do desenvolvimento
físico, emocional e social, encontra-se, frente ao adulto,
em clara situação de inferioridade e poder, sendo, portanto,
facilmente induzido, seduzido ou convencido a permitir
a violação, quer ocorra por sedução, ameaça à integridade
de familiares ou indução à culpa.
Há ainda um terceiro tipo, o não-físico. Compreende o voyeurismo
(invadir a privacidade da criança, para observá-la em
sua intimidade), o exibicionismo (tornar visível os próprios
órgãos sexuais, mostrar fotos e imagens de atos sexuais
normais ou bizarros, e descrever atos sexuais para a criança)
e a pornografia infantil (filmar e fotografar crianças
nuas, visando divulgação ou venda). O abuso sexual entre
crianças, embora menos freqüente, também existe; em geral
ocorre por imposição da maior ou mais forte sobre a menor
ou mais fraca.
Embora haja relação entre pobreza e prostituição, não se pode
simplificar o problema, relacionando-o somente a essas
duas variáveis. É importante considerar o aumento da prostituição
infantil: dados de 1996 estimavam em mais de 2 milhões
o número de crianças prostituídas em todo o mundo - e
o número vem aumentando.
O
fato de a sociedade moderna incitar ao desejo irrefletido
por bens materiais, ao imediatismo, à beleza eterna, ao
sucesso e à fama (de preferência alcançáveis de forma
fácil), bem como a desestruturação da família, o tênue
limite entre liberdade e licenciosidade e a crise ética
tornaram possível a vitimização também de jovens de classes
sociais mais favorecidas.
A
força do apelo continuado desses "valores" materialistas
sobre jovens em formação propicia expectativas e comportamentos
que os tornam vulneráveis e suscetíveis à sedução de promessas
irreais. Assim, são envolvidos e espoliados. Ao aceitarem
certas propostas estão, no fundo, o mais das vezes, acreditando
alcançar "sucesso" e "celebridade"
rapidamente.
A
Internet, por sua vez, tornou muito fácil e praticamente
impune a ação e interação entre pedófilos, proxenetas
e as crianças. A troca de informações é rápida e anônima,
permitindo a organização e divulgação imediata de material
pornográfico, além de possibilitar busca constante
por novas vítimas.
A
pedofilia tem também forte relação com incesto e com os
interditos sociais ligados à sexualidade. Não se pode
deixar de mencionar o fato, muito freqüente, de a pedofilia
ser praticada por pessoas próximas à vítima, a maior incidência
ocorrendo entre pai-filha e padrasto-enteada. Um
estudo, feito nos EUA em 1998, com cerca de dez mil crianças
molestadas sexualmente, demonstrou que mais da metade
fora vítima de pais, tios, padrinhos e primos mais velhos.
Importante destacar que o abuso sexual também vitimiza
meninos, embora a prevalência continue com meninas.
As
conseqüências para essas crianças são extremamente graves.
Podem apresentar, em decorrência, na infância dificuldades
de aprendizagem, medo exagerado de adultos e perturbações
no comportamento; na adolescência podem surgir dificuldades
de identificação de gênero, depressão, anorexia e prostituição
entre outros. Na idade adulta e na velhice disfunções
sexuais variadas, além de depressão, angústia e dificuldades
de realização afetivo-sexual. Muitas das crianças molestadas
no passado transformam-se nas molestadoras do presente.
Em
geral as vítimas não relatam o ocorrido aos responsáveis,
por vergonha ou medo. Apesar disso, "enviam mensagens"
de diversas maneiras, quase sempre não-verbais, que permitem
suspeitar de situações de maus-tratos e abuso sexual.
Contudo, é importante lembrar que as evidências de ocorrência
de violência sexual são compostas não só por um, mas por
um conjunto de indicadores. É preciso, pois, cuidado,
para não incorrer em equívocos graves.
Nos casos em que a criança revela o "segredo",
é necessário que os pais tenham muito controle e grande
força interior, além de equilíbrio para de fato poder
ajudar o filho de forma adequada. Naturalmente, a revelação
tende a provocar descontrole, sentimentos de ódio, revolta
e desejo de vingança. Se deixarmos transparecer o abalo
que o fato gerou (por mais natural que seja) poderemos
levar a criança a supor que estamos "zangados"
com ela ou envergonhados, confundindo-a ainda mais, aumentando
sua sensação de culpa, medo e agravando seu estado
emocional. Portanto, é necessário que lhe seja assegurado
apoio, compreensão, proteção e, especialmente, que deixemos
clara nossa aprovação pela coragem de nos ter procurado.
Também devemos demonstrar e expressar que reconhecemos
o conflito e o esforço que fizeram para revelar o fato.
É essencial, acima de tudo, garantir que ela será protegida
e que também os pais estarão bem e nada sofrerão. Em geral
o molestador ameaça os parentes, irmãos ou pais para conseguir
seu intento e o silêncio ou anuência da criança.
No artigo abaixo, trataremos dos sinais e sintomas indicativos
de molestamento sexual e das providências que pais e educadores
devem tomar.
Pedofilia, atuando para prevenir
Como vimos no artigo anterior, os casos registrados
de abuso sexual contra menores vem aumentando de forma
alarmante. Acredita-se que o total seja ainda mais elevado
do que o número oficial, pois provavelmente a maioria
nunca vem à tona.
O que todos buscamos ansiosamente é evitar uma ocorrência
tão brutal e traumatizante contra aqueles que estão sob
nossos cuidados, porque a tendência dos responsáveis,
quando tomam conhecimento do ocorrido, é se culparem dolorosamente,
por acharem que deviam ter percebido ou que podiam ter
evitado o problema. Em geral, isso não corresponde à realidade,
mas vale a pena ter noções básicas a respeito, que possam
dar mais possibilidades de uma ação preventiva.
Em primeiro lugar é importante saber
que o pedófilo normalmente não tem ?cara de mau?, como
a nossa revolta poderia fazer supor. Muitos são chefes
de família que mantêm, tanto com os filhos como com a
esposa, relações normais. Quem molesta crianças, não obrigatoriamente
faz o mesmo com seus filhos. Por outro lado, em muitos
casos, o molestador é o próprio pai, padrasto, padrinho,
um tio ou até mesmo um primo mais velho - enfim pessoas
em que todos confiam. Esse fato explica porque é tão difícil
identificar o problema logo de início. Na maioria dos
casos, a vítima conhece o pedófilo, que age de forma a
que ela ?pense? que o que está ocorrendo é normal. Por
vezes, a própria criança acaba sentindo prazer nesses
contatos, o que torna ainda mais remota a possibilidade
de ajuda.
Os molestadores sexuais podem ser pessoas
de qualquer nível social e cultural, com predominância
do sexo masculino e que, em geral, começam a agir antes
dos 30 anos. Verdade é que, perpretado contra parentes
ou não, esse tipo de indivíduo sente atração e prazer
sexual com crianças.
A prevenção deve incidir, portanto, sobre
a criança. Educação sexual atualmente é parte da formação
integral da criança, e não pode ser ignorada por pais
e educadores. Deve ser iniciada a partir do momento em
que a criança pergunta qualquer coisa sobre sexualidade
ou reprodução. As respostas devem ser objetivas e claras,
e restringir-se ao que a criança indagou. Afinal, seja
pela questão da pedofilia, seja pelo aumento da prostituição
infantil e juvenil, pela promiscuidade, gravidez precoce
ou pelo incremento de doenças sexualmente transmissíveis
há motivos de sobra para se trabalhar conhecimentos e
valores relacionados à sexualidade e à higidez corporal
em geral.
Além desse trabalho, os adultos precisam
também estar atentos aos sinais que a criança nos envia,
sejam eles físicos ou comportamentais. No mundo vertiginoso
em que vivemos tais pedidos de socorro podem passar despercebidos.
Os indicadores
comportamentais mais comuns são: mudanças repentinas
na forma de agir; aumento intenso da agressividade; interesse
súbito e fora do comum por assuntos ligados a sexo; pesadelos;
insônia; depressão; insistência em dizer que está sujo/a;
reação aversiva a ser tocado/a fisicamente; uso de termos
relacionados ao ato sexual incompatíveis com a idade;
simulação do ato sexual com brinquedos ou bonecos; preocupação
de que haja algo ?errado? com seus genitais; desenhos,
pinturas ou outras formas de expressão em que o ato sexual
é representado com freqüência e de forma impressiva ou
com cores muito fortes; medo descabido de determinadas
pessoas; tentativas de fazer ou representar o ato sexual
com outras crianças, entre outros.
Os sintomas
físicos mais comuns são: irritação (pele avermelhada
ou arranhada) e/ou ferimentos na área genital; corrimento
e coceira intensa nas áreas genitais; aparecimento de
doença venérea e/ou hemorragia vaginal ou anal.
As queixas e atitudes das crianças não
podem ser negligenciadas, porém, para iniciar alguma ação
efetiva, especialmente com relação aos indicadores comportamentais,
é necessária a presença de vários deles ao mesmo tempo,
por vários dias seguidamente. Um sintoma ocasional apenas
não costuma ter significado para o caso em questão. Já
os sintomas físicos citados não podem esperar: a presença
de qualquer um deles indica a necessidade de uma ida imediata
ao pediatra ou ao clínico (dependendo da idade da vítima),
que examinará e fará o diagnóstico diferencial. Essencial
é agir sem alarde, sem acusar nem levantar suspeitas que
possam depois se revelar infundadas, pois o prejuízo nesses
casos também pode ser grande.
Estar atento, agir na prevenção e atuar
diante de fatos concretos. Esses são os pilares para que
se evitem duas situações extremas: a minimização/descaso
diante de um problema real ou o exagero/pânico, que transforma
atenção e cuidado em paranóia ou compulsão.
Um último ponto em que não poderíamos deixar de tocar:
ao propiciar aos filhos o uso da Internet (um dos meios
que mais tem propiciado o crescimento da pedofilia e da
prostituição infantil) estabeleça com os filhos, desde
o início, as regras de uso. Seja claro em relação ao que
pode e o que não pode ser acessado; explique também o
?porque?; explicite quais as responsabilidades que as
crianças têm em relação ao benefício recebido, o uso permitido
e o que decorrerá caso os acordos sejam rompidos. Às vezes
é preciso prevenir para não ter que remediar.
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